sexta-feira, 5 de março de 2010

A linha 180

Era apenas mais um dia comum aquele...saí do plantão
e tomei a direção do ponto de ônibus na Av: Venezuela.
Esperava o da linha 180, que vai para o Cosme Velho,
mas o danado demorava tanto que estava prestes a desistir.

Foi quando um carro buzinou e eu displicentemente olhei
no seu interior...
um homem belo, já de meia idade, me acenou, chamou-me
pelo nome e estacionou.
Me aproximei meio sem graça, por não o reconhecer
de imediato, então ele percebendo isso,
me dissse que eu de fato, não me recordava dele
porque o tinha visto apenas uma única vez.
Me fez relembrar, na sala de cirurgia,
o dia em que trabalhamos juntos,
ele anestesista na pediatria.
Disse se recordar do meu nome e de mim,
se desculpou pela liberdade tomada
e me ofereceu uma carona. Diante da minha surpresa,
se apressou em dizer que morava no Leme e portanto
o Catete era o seu caminho também,
e que eu ficasse tranquila,
pois seria apenas uma carona mesmo.
relaxei e entrei no carro dele...
Logo uma música suave invadiu-me os ouvidos
e ele se calou,
como se entendesse que eu estava em sintonia
com a bela canção...
O trânsito na Rio Branco, sempre denso e complicado,
naquele dia estava tranquilo,
e isso surpreendentemente me irritou...
O engraçado é que até aquele momento,
nem o nome dele eu sabia ainda...
mas o olhava por "rabo de olho" encabulada.
Claro que ele percebeu (parecia perceber tudo),
e por fim, acabou quebrando o silêncio...
__Você não consegue mesmo se lembrar de mim não é?
Confirmei acanhada e ele se apresentou:
__Sou o Fábio, anestesista da pediatria,
consegue se lembrar?
Claro! A imagem dele na sala de cirurgia
me veio na mente como um raio! Sério,
até meio taciturno...de poucas palavras...
nenhum olhar (pelo menos que eu tivesse percebido),
e no entanto ele gravou o meu nome.
Falou daquele dia...
que notou meu jeito descontraído com os colegas...
que agora estava bem difenciado do que ele viu...
falou que estava morando a pouco no Rio...
que nada conhecia direito...
que não gostava muito de aglomerações...
falou também da sua dificuldade de se enturmar...
O carro chegou depressa ao Catete
e ele me perguntou onde eu queria ficar...
não esperava a pergunta e fiquei vermelha...
eu não queria ficar.
Novamente ele leu meus pensamentos e
se desculpou pela ousadia,
antes de me convidar para um drink.
Era tudo o que eu esperava ouvir naquele momento...
Nos emcaminhamos para um barzinho
aconchegante por ali mesmo...
conversamos como velhos amigos
e o tempo passou ligeiro...
bebemos um pouco além da conta,
e quando dei por mim...
não havia mesas...cadeiras...barmens...
só uma cama grande, macia...
só um homem e uma mulher...
só um casal...
No dia seguinte...
acordei logo cedo (já em casa),
tomei um banho,
me aprontei rapidamente e parti
rumo ao ponto do ônibus da linha 180.
Era hora de ir trabalhar....

(Nane - 04/03/2010)

Nenhum comentário:

Postar um comentário