terça-feira, 30 de março de 2010

A Guerreira - XI (A História de Lívia)


Lucas, Liu e Laura...

Laura sabia que alguma coisa de ruím havia acontecido
em sua casa, mas apesar de estar a menos de 10 metros
dela, nunca lhe pareceu tão longe! Por fim, como que
desperta de um torpor, gritou alto e forte: - Calem-se
todos! Fala um de cada vez! O que aconteceu? E foi pos-
ta a par da situação: Como choveu muito, o rio que cor-
ta a rua encheu e quase transbordou. Seu irmão Lucas,
na sua incente curiosidade, colocou um bambu dentro da
água que corria numa força tal, que o fez voar e ele
caiu dentro da galeria, indo embora na correnteza forte
do rio. Um senhor, vizinho e dono de um bar, pulou atrás
do menino, e ambos haviam sumido corredeira abaixo.
E como se não bastasse isso, o outro irmão mais novo que
Lucas, o Liu, estava em casa em estado de choque, ele viu
o irmão ser lançado na galeria...Laura lembrou-se da mãe:
- Mas e minha mãe, cadê ela? Alguém na multidão respondeu:
- Ela não está em casa...parece que havia saído com umas
irmãs dela que chegaram de Minas!
Laura então saiu correndo e entrou em casa desesperada. Liu
estava paralisado e com o olhar esbugalhado, sem ver nada!
Muitas pessoas falando e opinando ao mesmo tempo em sua ca-
beça: - O outro já morreu mesmo, pega esse aí e leva para o
hospital agora, senão ele morre também! Outra era mais enfá-
tica: _Acho até que esse também já morreu! Só não caiu ainda...
E que mãe é essa? Que deixa os filhos em casa e sai? Foi o
suficiente para Laura voltar a si e adquirir a praticidade que
sempre lhe foi característica:...: -Sumam todos da minha casa
agora! Se meus irmãos morreram ou não é problema meu! E quem
falar mal da minha mãe dentro da casa dela, vai levar uma vas-
sourada no meio da fuça!
Laura saiu empurrando o povo rumo a porta da sala com grosseria,
mas determinada a fechar a mesma na cara daquelas pessoas com
espíritos de porcos.
Pediu a ajuda de uma vizinha que tinha carro para levar Liu ao
hospital, mas antes que pudessem sair, o Lucas apareceu na porta,
sujo de barro da cabeça aos pés...cercado pela multidão incrédula
que novamente invadiu a casa de Lívia!
Laura não sabia se ria ou se chorava! Era ela agora que estava em
choque! O povo todo queria tocar no morto que voltou! Lucas sobre-
viveu graças a um ramo de amoreira, que pendeu para dentro da gale-
ria! E olha que isso foi a menos de dois metros da água ingressar
nas manilhas que a levaria a desaguar no Paraíba do Sul! Se ele en-
trasse lá, não teria como respirar...a morte era certeza absoluta!
Lucas contou essa história por mais de cinquenta vezes ao povo, e aí,
depois de uns bons 30 minutos em que ele estava em casa, de banho to-
mado e tudo, eis que aparecem os bombeiros! Como Laura era a mais ve-
lha presente no recinto (embora ainda fosse de menor), eles queriam
que ela assinasse uma notificação do salvamento de Lucas. Laura os
olhou fixamente nos lhos e disse: - Vocês são bem cara de pau! Sumam
daqui agora! Não assino nada! Meu irmão está vivo, graças a Deus! Se
dependesse de vocês, ele estaria sendo aprontado para entrar num caixão!
Sumam daqui! E aproveitando a crise de bravura, colocou de novo, todos
porta a fora. Liu, ao ver o irmão bem, voltou ao seu estado normal, e
quando Lívia retornou a sua casa, apenas soube do ocorrido...pela vi-
zinhança fofoqueira e melindrada com os maus tratos de Laura.
O senhor que pulou atrás de Lucas na galeria, também foi salvo por
uma alma caridosa que conseguiu jogar-lhe uma corda. Lívia foi visitá-
lo e agradecer pessoalmente o gesto nobre a favor do seu filho.
Se desculpou com a vizinhança toda pelo jeito estourado de Laura, e pe-
diu que entendessem a menina, que havia recebido uma carga grande demais
para a idade dela. Mas na intemidade de casa, Lívia parabenizou a filha
e falou do seu orgulho por ela!
Parecia que tudo estava bem. O Natal se aproximava e o ano de 1976 se
findava...Já era o mês de dezembro, quando o Lucas apresentou os primei-
ros sintomas da consequência de ter ingerido aquela água suja e contami-
nada...

(Nane-30/03/2010)

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