quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Reflexo sem data



Olhei minha mãe adormecida,
caquética e sibilante num ressonar profundo...
A mão torta, sequelada de um avc,
os olhos, ainda que fechados, entreabertos e lacrimosos...
Descanso, enquanto ela adormece,
daqui a pouco pedirá para ir ao banheiro...
É pesada. Anda com dificuldades,
praticamente a arrasto.
Seus passos são trôpegos e vacilantes...
Se ajeita e a conduzo ao sofá,
onde passa o dia inteiro a ver TV...
Reclama de mim, também eu reclamo dela...
Passamos o dia na penimba, até que ele se acabe
Eu quero rabiscar, e ela conversar...
São vontades desencontradas,
desejos diferenciados,
verdades intactas, de pessoas atreladas,
de vidas passadas no presente que se faz.
Minha mãe envelheceu...estou a caminho,
sigo seus passos...a vejo no espelho
cada vez que me procuro...
sou o reflexo do seu ontem,
e ela, minha imagem do amanhã...

(Nane-10/11/2010)

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